not marriage material

escrever para não explodir

Você sabe. Você lembra.

Você sabe. Você lembra. Ela disse que estava cansada, você insistiu até que ela consentisse. Você sabe. Você lembra. Ela estava dormindo, mas você começou mesmo assim. Você sabe. Você lembra. Ela disse “pare”, mas você estava quase gozando, era só mais um pouquinho, então você continuou. Você sabe. Você lembra. Ela disse não mas você fingiu não ouvir, ela disse não de novo, e você fingiu não ouvir de novo, e então ela se calou e você prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Você sabe. Você lembra. Ele te contou o que fez com ela na mesa do bar, você riu, desconfortável, e apenas mudou de assunto. Você sabe. Você lembra. Ela não respondia com qualquer sinal de excitação, mas você fingiu não saber a diferença entre excitada e amedrontada. Você sabe. Você lembra. Ela ficou vermelha e envergonhada com os comentários do companheiro, mas você pediu mais uma cerveja e não falou nada. Você sabe. Você lembra.

Eu entendo que você se sente envergonhado. Mas o dia de hoje não é sobre a sua vergonha.

Hoje, se posicione, se você sentir vontade de se posicionar. Diga que você é contra a cultura do estupro, diga o quanto você despreza homens que tratam mulheres dessa maneira.

Hoje, tire um tempo do seu dia para pensar em tudo que você já fez às mulheres. Pense em todas elas, todas as que passaram pela sua vida. Faça esse exercício longo, doloroso, cheio de culpa. Se você sentir vontade de se desculpar, se desculpe, mas, por favor, não faça pedidos públicos de desculpas. Esse dia não é sobre a sua redenção, sobre a sua evolução como ser humano. Se você se sentir realmente impelido a pedir desculpas, sem pedir nada em troca, se você estiver realmente arrependido e preocupado com as mulheres, por favor, peça desculpas, mas somente a elas. Faça com que cada uma de nós saiba que você sabe, que você lembra, que você assume a culpa, que você nunca mais vai fazer isso. E não peça resposta, e não poste no facebook, e não exija nada. Por elas. Para elas. Faça algo por nós, mas realmente por nós. E só faça isso se for verdade, se você tiver um compromisso real com isso.

Hoje, se comprometa. O mais importante de tudo é que você se comprometa a nunca mais na sua vida inteira fazer aquilo de novo, que se comprometa a nunca mais nos esmagar, a nunca mais nos humilhar, a nunca mais nos estuprar, a nunca mais nos destruir, a nunca mais nos diminuir, a nunca mais se esquecer dos efeitos que suas ações, por menores que sejam, tem sobre cada uma de nós.

As gaiolas, meu amor, as gaiolas

Tem dias que eu acordo fraca. Cansada. Olho lá pra fora. A porta está aberta. Eu abri. Esperneando, quebrei os cadeados. Mas tem dias que é difícil sair. A gaiola onde eu nasci é bem grande. Gaiola de mulher branca, hetero, cis. Eu sempre tive todo esse espaço que também não conquistei. Tenho parceiros que tem que se virar em espaços muito menores. Lá fora, somos todos estranhos. Loucas, putas, vacas difíceis, aberrações. Ainda pagamos caro pra andar entre aqueles que sempre estiveram ali.

Mas o pavor é tanto que eles nem conseguem ver as gaiolas. Nem essa gaiola enorme onde eu nasci. Eles a imaginam e tremem. Se debatem. Aqueles que sempre estiveram ali fora insistem que todos estão do lado de lá, e que a única coisa que podem fazer é continuar andando livremente pelos espaços que sempre foram seus. Andando como quiserem. Correndo como quiserem. Amando como quiserem. Eles sabem tudo. Eles nem sabem o que é uma gaiola, mas sabem tudo sobre como sair dela. Eles nem tem que se defender, mas sabem tudo sobre como devemos nos defender. Sobretudo, eles sabem tudo sobre amor. Porque o amor sempre foi deles. Amor, paixão, sexo, desejo. Tudo é ilimitado porque seu acesso a tudo sempre foi. Ilimitado e legítimo. E eles bradam por aí o direito que têm, direito a uma liberdade que nunca tiveram que conquistar.

“O amor tem que ser livre”. Oh, meu amor. Nós sabemos. Nós que nascemos nessas gaiolas que vocês desconhecem, nós sabemos. Nós lutamos por um mundo em que possamos amar como vocês amam. Lutamos por um mundo em que não nos matem, não nos estuprem, não nos destruam, não nos devastem porque escolhemos ser quem somos, porque escolhemos amar quem amamos, quantos amamos, do jeito que amamos, porque nos entregamos aos nossos desejos, porque usamos uma saia, porque passamos batom. Ai, meu amor, reprodução de privilégio nunca foi luta, não precisa ter medo, ninguém vai te tirar nada. Quem poderia? E como dói que nosso amor não seja livre. E como dói que nossos corpos não sejam livres. E como dói ter essa liberdade que é tua de mão beijada esfregada na nossa cara. Essa cara que precisa respirar fundo pra sair na rua. Esse corpo que tem que lutar por cada gozo. Que tem que inventar vida onde nosso desejo caiba. E é tanto desejo que transborda, a contragosto dessa rua que faz a gente pagar caro por liberdade.

Então eu saio. E pago. Transbordando. Feliz. Sairia muito mais caro voltar pra gaiola.

Eu gosto de ser branca.

Eu gosto de ser branca. Eu gosto da cor da minha pele, eu gosto dos meus traços, eu gosto do meu cabelo lisinho e meio loiro. E sabe por que eu gosto? Porque sempre foi muito fácil gostar. Nunca, implícita ou explícitamente, alguém me disse alguma coisa que me fizesse sentir que havia algo de errado, algo de feio, algo de esquisito, na minha pele branquinha, no meu cabelo loirinho. Nunca disseram pra minha mãe que ela deveria fazer alguma coisa a respeito do meu cabelo. A maioria nas universidades é branca. A maioria nos concursos públicos é branca. São os brancos também que tem mais dinheiro.

Sou mulher, e já fui destratada de diversas formas e sofri violências de diversos tipos por ser mulher, e as vezes por outros motivos, mas nunca simplesmente por ser branca.

Então, gostar de ser branca eu até posso dizer que gosto, porque as minhas vivências como pessoa branca não me ofereceram nenhuma dificuldade em aceitar isso como valor positivo. Agora orgulho? Orgulho pra que? Orgulho de que? Eu não conquistei isso, eu nasci assim e por ter nascido assim já me foram concedidos muitos privilégios. Se eu não tenho tudo de mão beijada, e eu não tenho, se eu preciso lutar pra conquistar muitas coisas, e eu preciso, isso não passa ainda pela luta pra mostrar que minha cor tem o mesmo valor que a sua.

Esses dias eu ouvi alguém (branco) dizendo: “eu não vou ter vergonha da minha cor”. Pois é, não vai mesmo, essa é justamente a questão. Gente branca nunca precisou ter vergonha da própria cor. Se você é branco você já ganhou um ponto positivo na média. Uma estrelinha. Você quer quantas? Ou você só quer que o amiguinho não ganhe uma também? Sociedade birrenta é sociedade que não evolui, simplesmente porque não consegue pensar coletivamente.

“Se ele pode ter orgulho de ser negro eu posso ter orgulho de ser branco”. Não, não pode. Você não precisa querer ser negro, você não precisa detestar ser branco, você só precisa parar de fazer birra.

“Mamãe, mamãe, mamãe, também quero ter orgulho”. Pois é criança, mas o seu coleguinha tem que resistir a uma porção de preconceitos plantadíssimos na sociedade todo dia, preconceitos diretamente ligados a cor dele e que afetam todas as esferas da sua vida, da autoestima baixa até correr maior risco de ter uma morte violenta. O orgulho negro faz sentido porque numa sociedade que historicamente (e ainda hoje) o coloca como inferior, se orgulhar da própria cor é um ato de resistência. Não precisa ter vergonha de ser branco. Mas eu consideraria ter vergonha de sair por aí dizendo que tem orgulho de ser branco.

Isso vale pro orgulho hétero também, e pra qualquer outro orgulho dominante. Pode ter orgulho sim, mas vai ter orgulho de outra coisa. De alguma coisa boa que você realmente fez, ligada a alguma dificuldade real que você tinha e superou, e para de fazer birra.

A serviço da ereção

Há alguns anos atrás, durante uma tarde de jogar conversa fora, um amigo soltou uma pérola que eu nunca esqueci. Ele disse, de forma muito casual, que não entendia porque estupro era uma coisa errada. Para ele, estupro era sexo, e sexo era uma coisa normal. Eu me senti devastada. Um amigo, alguém querido, legal, inteligente, não conseguia entender a diferença entre sexo e estupro.  Aparentemente, ele tinha a impressão de que se sentir excitado era suficiente para justificar uma relação sexual que envolvia duas pessoas. O choque, a indignação e a dor me deixaram um pouco desnorteada, mas eu lembro de ter tentado explicar que o fato das mulheres não manifestarem excitação sexual de forma tão visível (com uma ereção) não queria dizer que estávamos eternamente prontas e super afim de mandar ver.

A revelação foi perceber que é isso mesmo. Se há homens (e são tantos homens!) que mexem com mulheres na rua, que as agarram nas baladas, que as encoxam nos ônibus, que estupram não só desconhecidas mas amigas, companheiras, namoradas e esposas, essa não deve ser uma opinião tão incomum assim. Não só entre os homens, mas entre as mulheres também. Afinal, as próprias vítimas de estupro se sentem culpadas.

Pouco tempo depois, eu estava saindo com um cara e ele me chamou de careta porque eu não quis realizar uma fantasia sexual dele. Ele ainda me disse que me achou, não apenas careta, mas reacionária por causa disso.

Eu senti que meu desejo não valia nada perto do dele. Eu não era uma pessoa inteira, complexa, cheia dos meus desejos de sim e de não (sim, porque existem desejos de não também). Eu era essa reacionária (todo mundo sabe o que é reacionário?) me opondo a potência revolucionária do desejo e do prazer dele. Pode parecer que não faz sentido comparar essas duas situações, mas o fato é que elas jogaram na minha cara que a sexualidade masculina é vista como essa força incontrolável que tudo pode, que deve ser atendida a qualquer custo. Desse ponto de vista, a sexualidade feminina deve se limitar a atender essa força. Ela é servidão, e qualquer tentativa de libertação parece ser revertida em mais servidão.

Talvez pareça exagero, afinal, nenhum dos dois moços excitados cometeu ato nenhum de violência. Eles estavam apenas expressando livremente suas opiniões. Mas os atos mais escabrosos de violência não acontecem do nada. Eles são as consequências mais extremas e cruéis de pensamentos assustadoramente comuns. 

Não é isso que essa pesquisa do Ipea diz? Essa que constatou que uma porcentagem enorme da população brasileira acredita que a forma como mulheres se comportam e se vestem influencia situações de violência sexual. Essa pesquisa apenas esfrega na nossa cara que essa é a mentalidade dominante. Ela apenas coloca em números o que a gente já sente na pele. Se quisermos, podemos esconder nossa sexualidade e seremos deixadas em paz. Se não, se quisermos expressar nossa sexualidade da forma que escolhermos, seremos cobradas por isso. Teremos que satisfazer as fantasias que despertarmos, até as últimas consequências. Somos eternas pecadoras, culpadas e responsáveis por toda e qualquer ereção.

Carta ao(s) cara(s) que filma(m) mulheres transando e coloca(m) na internet

Ao contrário das mulheres que tem seus rostos, seus nomes e suas vidas escancaradas pelas suas ações, infelizmente é mais difícil saber quem você é. Você é o cara que segura a câmera, que muitas vezes não se mostra, pra depois poder negar tudo. Quando se mostra é com orgulho, porque o seu desejo não é motivo de vergonha. Só o seu.

É isso que você faz. Usa o desejo delas como arma contra elas mesmas. As humilha com suas próprias vontades, as destrói com seu próprio prazer.

Eu queria dizer que tenho até pena de você. Até mais do que nojo, tenho pena. Porque alguém que tem um desrespeito desse tamanho pelo outro não pode gozar plenamente. Nem sozinho, nem acompanhado. Essa sua sexualidade limitada, centrada nesse iceberg que você tem no meio das pernas é ridícula. Você usa sexo pra machucar porque, como todo misógino, você odeia seu desejo.

Por todas as mulheres e todos os homens que não são só pica e buça, que tem no meio das pernas apenas o epicentro quente de um corpo inteiro cheio de potência deliciosa de satisfação, por todos os seres humanos maravilhosos que adoram sexo suado, safado e molhado, que não tem medo de gozar do jeito que for e que, principalmente, não tem medo do gozo do outro, eu espero que um dia a gente seja tão feliz e esteja tão a vontade com a nossa sexualidade e com a dos outros que situações como essa não façam o menor sentido.

Considerações inacabadas sobre a penetrabilidade

A penetrabilidade feminina

Mulheres são penetráveis. Homens penetram.

Quando falamos de igualdade sexual não podemos esquecer essa diferença. A igualdade supõe a diferença, depende dela. Mulheres e homens não são iguais. Mulheres não são todas iguais. Homens também não.

Mulheres são penetráveis. É isso que faz de uma mulher uma mulher. Desejam ser penetradas.

Homens não são penetráveis, homens penetram. É isso que faz de um homem um homem. Desejam penetrar.

A homossexualidade revolucionária

É ameaçador que uma mulher penetre a outra, e é assustador que um homem seja penetrado.

A homossexualidade desestabiliza tudo o que define mulheres e homens sexualmente. Desestabiliza os papeis. Torna homens penetráveis. Quando um homem toma consciência da sua penetrabilidade, toma consciência também da sua vulnerabilidade. Quando um homem mostra interesse sexual em outro homem, é comum que, sendo heterossexual, esse último se sinta ameaçado. Então as mulheres dizem: “Agora você sabe como nos sentimos”, e o homem diz: “Não é a mesma coisa”. O homem penetrável é um absurdo.

Todo homofóbico é misógino. Odeia saber que homens penetram outros homens porque agora tem medo de ter um buraco. Buracos são coisa de mulher. Elas que lidem com o medo, elas que lidem com a ameaça da penetrabilidade absoluta.

A confusão do desejo ou vaginas não são buracos

Se o desejo do homem é penetrar, ele deve penetrar quando quiser. O desejo masculino heterossexual é o desejo dominante. Ele é o desejo normal. O desejo que deve ser obedecido e a partir do qual todos os outros devem ser definidos.

Talvez venha daqui a confusão sobre o desejo feminino. Uma mulher parece sempre pronta a ser penetrada, o homem tem que estar preparado para penetrar. O desejo da mulher não é tão aparente, não é tão visível. É daí que vem também a confusão sobre violência sexual. Se mulheres gostam de ser penetradas, porque penetrá-las seria violento?

Um pênis não é penetrável. Portanto não é fisicamente possível forçá-lo ao sexo.

Vaginas são penetráveis. São buracos. Se sou um homem, posso penetrar buracos quando eu quiser. Mas e o querer dos buracos? Buracos não tem querer. Buracos são buracos esperando para serem preenchidos.

Querido, repita como um mantra: a vagina não é um buraco.