A serviço da ereção

por not marriage material

Há alguns anos atrás, durante uma tarde de jogar conversa fora, um amigo soltou uma pérola que eu nunca esqueci. Ele disse, de forma muito casual, que não entendia porque estupro era uma coisa errada. Para ele, estupro era sexo, e sexo era uma coisa normal. Eu me senti devastada. Um amigo, alguém querido, legal, inteligente, não conseguia entender a diferença entre sexo e estupro.  Aparentemente, ele tinha a impressão de que se sentir excitado era suficiente para justificar uma relação sexual que envolvia duas pessoas. O choque, a indignação e a dor me deixaram um pouco desnorteada, mas eu lembro de ter tentado explicar que o fato das mulheres não manifestarem excitação sexual de forma tão visível (com uma ereção) não queria dizer que estávamos eternamente prontas e super afim de mandar ver.

A revelação foi perceber que é isso mesmo. Se há homens (e são tantos homens!) que mexem com mulheres na rua, que as agarram nas baladas, que as encoxam nos ônibus, que estupram não só desconhecidas mas amigas, companheiras, namoradas e esposas, essa não deve ser uma opinião tão incomum assim. Não só entre os homens, mas entre as mulheres também. Afinal, as próprias vítimas de estupro se sentem culpadas.

Pouco tempo depois, eu estava saindo com um cara e ele me chamou de careta porque eu não quis realizar uma fantasia sexual dele. Ele ainda me disse que me achou, não apenas careta, mas reacionária por causa disso.

Eu senti que meu desejo não valia nada perto do dele. Eu não era uma pessoa inteira, complexa, cheia dos meus desejos de sim e de não (sim, porque existem desejos de não também). Eu era essa reacionária (todo mundo sabe o que é reacionário?) me opondo a potência revolucionária do desejo e do prazer dele. Pode parecer que não faz sentido comparar essas duas situações, mas o fato é que elas jogaram na minha cara que a sexualidade masculina é vista como essa força incontrolável que tudo pode, que deve ser atendida a qualquer custo. Desse ponto de vista, a sexualidade feminina deve se limitar a atender essa força. Ela é servidão, e qualquer tentativa de libertação parece ser revertida em mais servidão.

Talvez pareça exagero, afinal, nenhum dos dois moços excitados cometeu ato nenhum de violência. Eles estavam apenas expressando livremente suas opiniões. Mas os atos mais escabrosos de violência não acontecem do nada. Eles são as consequências mais extremas e cruéis de pensamentos assustadoramente comuns. 

Não é isso que essa pesquisa do Ipea diz? Essa que constatou que uma porcentagem enorme da população brasileira acredita que a forma como mulheres se comportam e se vestem influencia situações de violência sexual. Essa pesquisa apenas esfrega na nossa cara que essa é a mentalidade dominante. Ela apenas coloca em números o que a gente já sente na pele. Se quisermos, podemos esconder nossa sexualidade e seremos deixadas em paz. Se não, se quisermos expressar nossa sexualidade da forma que escolhermos, seremos cobradas por isso. Teremos que satisfazer as fantasias que despertarmos, até as últimas consequências. Somos eternas pecadoras, culpadas e responsáveis por toda e qualquer ereção.

Anúncios