As gaiolas, meu amor, as gaiolas

por not marriage material

Tem dias que eu acordo fraca. Cansada. Olho lá pra fora. A porta está aberta. Eu abri. Esperneando, quebrei os cadeados. Mas tem dias que é difícil sair. A gaiola onde eu nasci é bem grande. Gaiola de mulher branca, hetero, cis. Eu sempre tive todo esse espaço que também não conquistei. Tenho parceiros que tem que se virar em espaços muito menores. Lá fora, somos todos estranhos. Loucas, putas, vacas difíceis, aberrações. Ainda pagamos caro pra andar entre aqueles que sempre estiveram ali.

Mas o pavor é tanto que eles nem conseguem ver as gaiolas. Nem essa gaiola enorme onde eu nasci. Eles a imaginam e tremem. Se debatem. Aqueles que sempre estiveram ali fora insistem que todos estão do lado de lá, e que a única coisa que podem fazer é continuar andando livremente pelos espaços que sempre foram seus. Andando como quiserem. Correndo como quiserem. Amando como quiserem. Eles sabem tudo. Eles nem sabem o que é uma gaiola, mas sabem tudo sobre como sair dela. Eles nem tem que se defender, mas sabem tudo sobre como devemos nos defender. Sobretudo, eles sabem tudo sobre amor. Porque o amor sempre foi deles. Amor, paixão, sexo, desejo. Tudo é ilimitado porque seu acesso a tudo sempre foi. Ilimitado e legítimo. E eles bradam por aí o direito que têm, direito a uma liberdade que nunca tiveram que conquistar.

“O amor tem que ser livre”. Oh, meu amor. Nós sabemos. Nós que nascemos nessas gaiolas que vocês desconhecem, nós sabemos. Nós lutamos por um mundo em que possamos amar como vocês amam. Lutamos por um mundo em que não nos matem, não nos estuprem, não nos destruam, não nos devastem porque escolhemos ser quem somos, porque escolhemos amar quem amamos, quantos amamos, do jeito que amamos, porque nos entregamos aos nossos desejos, porque usamos uma saia, porque passamos batom. Ai, meu amor, reprodução de privilégio nunca foi luta, não precisa ter medo, ninguém vai te tirar nada. Quem poderia? E como dói que nosso amor não seja livre. E como dói que nossos corpos não sejam livres. E como dói ter essa liberdade que é tua de mão beijada esfregada na nossa cara. Essa cara que precisa respirar fundo pra sair na rua. Esse corpo que tem que lutar por cada gozo. Que tem que inventar vida onde nosso desejo caiba. E é tanto desejo que transborda, a contragosto dessa rua que faz a gente pagar caro por liberdade.

Então eu saio. E pago. Transbordando. Feliz. Sairia muito mais caro voltar pra gaiola.

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